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sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A CRISTOLOGIA NEO-PENTECOSTAL (I)



Conferência teológica preparada pelo Prof. Isaltino Gomes Coelho Filho para a Faculdade Teológica Batista de Campinas, 14 de abril de 2004


Nesta palestra pretendo abordar a cristologia do neopentecostalismo. É uma tarefa bastante difícil porque boa parte do neopentecostalismo se desviou da autoridade normativa das Escrituras e cedeu espaço às visões e intuições de seus líderes. Como as palavras dos líderes são consideradas como sendo revelação divina, a sua teologia é pulverizada, porque Deus fala por todo mundo e fala as coisas mais díspares. Imaginemos, então, a sua cristologia. Mas é questão fundamental compreender a cristologia neopentecostal. Na realidade, um dos maiores problemas neopentecostais é o que fazer com a pessoa de Jesus Cristo. Vou me deter em alguns livros e outro tipo de material que pesquisei (estes livros são de figuras proeminentes do chamado “movimento da fé”, que não pode ser mais chamado de neopentecostalismo, mas talvez deva ser denominado de “baixo-pentecostalismo”) e, ao mesmo tempo, analisar alguns conceitos ouvidos em programas televisivos, bem como em pregações radiofônicas. Misturarei o movimento da fé, que é onde encontramos obras escritas, com citações de mensagens televisivas. Não cometo nenhuma irregularidade. O Movimento da Fé e o neopentecostalismo são gêmeos univitelinos.

Há uma babel de conceitos sobre Cristo. Duas questões colaboram decisivamente para isto. A primeira é que o movimento não tem, como já mencionei, uma teologia sistematizada. É um movimento supradenominacional, e é disto que tira muito de sua força. A segunda é que, ao seguir as palavras dos seus líderes como se fossem revelações vindas diretamente do Espírito Santo, o movimento se tornou doutrinariamente caótico, pois os líderes dizem coisas as mais díspares. Isto tornou esta palestra a mais difícil de ser preparada. Um neopentecostal escreve algo, como sendo revelação, e outro declara algo oposto, como sendo revelação. Ambos se dizem inspirados, não apenas iluminados, mas inspirados pelo Espírito Santo. Por vezes, as declarações não são, aparentemente, contraditórias, mas ao examiná-las, vemos que são opostas e colidentes entre si. Os aparentes enganos e as aparentes contradições que aqui aparecerem devem ser atribuídos às declarações lidas e ouvidas, não ao meu raciocínio. Esforço-me sempre para ser linear, mas confesso que aqui fiquei meio desorientado com as informações descobertas.

Dos muitos livros que examinei, o que mais poderia fornecer informações precisas sobre a visão neopentecostal a respeito da pessoa de Jesus seria O Nome de Jesus [1], da autoria de Keneth Hagin. No entanto, nos seus 23 capítulos há uma barafunda de idéias e de conceitos que desorientam qualquer leitor que procure um nexo, um fio condutor cristológico, o que é de se esperar, afinal, numa obra com este nome. O primeiro capítulo tem o título do livro, mas sua linha argumentativa é mostrar o nome de Jesus como sendo um talismã para ser usado em oração. O nome de Jesus é, assim mesmo, nestes termos, apresentado como uma procuração que Deus nos deu e para ser usado em oração. Um outro capítulo que poderia nos ajudar nesta avaliação é “Este Nome na Salvação”, mas tem apenas 20 linhas, sendo que nelas estão inseridos três textos bíblicos: João 14.6, Mateus 1.21,23 e Atos 4.12, no corpo do argumento. Pouca argumentação, como se vê. O livro é cíclico em seu conteúdo, sempre retornando a este ponto, a autoridade do nome de Jesus para sinais portentosos. O nome de Jesus é mostrado como se fosse uma senha para acessar o site dos milagres divinos e fazer um download do milagre que necessitamos. Fica a impressão de que Jesus é apenas um nome, não uma pessoa, uma pessoa eterna, autoexistente e sempre existente, mas apenas um nome místico e mágico. Nisto, o livro está certo quanto ao seu título. Cristo é cada vez mais um nome, um talismã, uma legenda, que uma pessoa, do que a segunda da Trindade, no neopentecostalismo.

E temos que falar um pouco, agora, embora de passagem, de salvação. Isto porque salvação e Cristo estão indissoluvelmente ligados no cristianismo tradicional. Este aspecto de pouco conteúdo cristológico se projeta no conceito de salvação. É óbvio para um cristão de teologia sóbria que cristologia e soteriologia não se podem dissociar. O cristianismo sempre entendeu que Jesus Cristo é o Salvador, e que a redenção humana é redenção do pecado, da morte e do poder do Maligno. Mas a soteriologia neopentecostal, exatamente por causa da visão cristológica deficiente, caminha para outro ponto. Em Redimidos da Miséria, da Enfermidade e da Morte [2], Hagin mostra a obra de Cristo como apenas nos resgatar de males físicos. Seu livro se abre com a referência bíblica de Gálatas 3.13-14 e 29: “Cristo nos redimiu da maldição da Lei quando se tornou maldição em nosso lugar, pois está escrito: "Maldito todo aquele que for pendurado num madeiro". Isso para que em Cristo Jesus a bênção de Abraão chegasse também aos gentios, para que recebêssemos a promessa do Espírito mediante a fé (...) E, se vocês são de Cristo, são descendência de Abraão e herdeiros segundo a promessa” (aqui transcritos na NVI, embora ele use outra tradução). A maldição da lei, para ele, são enfermidades e miséria econômica. Não há uma só palavra sobre vida eterna. O grande problema cristológico do neopentecostalismo se desdobra na doutrina da salvação. O conceito de salvação é material, limitado às esferas físicas, do corpo e das finanças, além de boas relações pessoais, principalmente conjugais. O aspecto soteriológico tradicional se esvai. Assim como a teologia da libertação, que assumiu uma hermenêutica marxista e identificou a salvação como libertação da opressão econômica em nível estrutural, o neopentecostalismo identificou a salvação como libertação das dificuldades financeiras, em nível individual. Sua soteriologia também é terrestre, prometendo um paraíso aqui na terra. Dificilmente ouvirão uma mensagem sobre perdão dos pecados e sobre a volta de Jesus, nos programas da Universal, por exemplo. Seu olhar é voltado para esta vida. Vale a pena lembrar, aqui, de Paulo, em 1Coríntios 15.19: “Se é somente para esta vida que temos esperança em Cristo, somos, de todos os homens, os mais dignos de compaixão” (NVI). A obra de Cristo transcende os limites do material e deste mundo. Só mesmo uma cristologia defeituosa para não entender e ensinar isto. E a cristologia neopentecostal é defeituosa, neste sentido. E, curiosamente, a teologia da libertação e a teologia da prosperidade, carro chefe do neopentecostalismo, são irmãs. Ambas olham apenas para este mundo. A segunda, que é de conteúdo mais espiritual, lamentavelmente, pouco ou quase nada tem a dizer sobre escatologia.

Já comentei, anteriormente, que o neopentecostalismo mudou o eixo hermenêutico, tirando-o da Escritura e passando-o para o crente. Assumiu a postura de Protágoras de Abdera: “O homem é a medida de todas as coisas; daquelas que são, enquanto são; e daquelas que não são enquanto não são”. Uma conseqüência lógica e inevitável desta atitude é que desta maneira a Palavra de Deus ainda está sendo escrita. Hagin, um dos mentores do movimento da Fé e o mais fecundo escritor neopentecostal, faz apologia de um dos livros de Kenyon, The Wonderful Name of Jesus. Diz ele, textualmente: “É conhecimento pela revelação. É a Palavra de Deus” [3]. Assim mesmo, no singular, “a”, e Palavra com P maiúsculo. A Bíblia não é mais autoritativa, pois homens a estão reinterpretando, dando-lhe outro sentido, e adicionando verdades ao já revelado. Ela é o ponto de partida, mas não a palavra final.

Com isto, torna-se difícil entender qual a linha do movimento neopentecostal, tamanha a multiplicidade de opiniões. São tantas quantos são seus pregoeiros. Mas algumas são repetidas, porque os maiorais as pronunciam e elas são repetidamente acriticamente. Surgem, então, algumas aberrações, pois a Palavra de Deus proferida pela boca de tais líderes não pode ser contestada. Benny Hinn, por exemplo, disse que estava recebendo uma revelação de Deus naquela hora, em um sermão que estava pregando. E foi isto que recebeu como revelação: que assim como a Trindade é Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo e cada um deles é trino, então, a Trindade tem nove pessoas. E encerrou a argumentação com esta frase: “Vocês dizem, humm, eu nunca ouvi falar disso. Bem, vocês pensam que estão nesta igreja para ouvir as mesmas coisas que ouviram pelos últimos 50 anos? Vocês não podem argumentar com a Palavra, podem? Está tudo na Palavra.” [4]. Quando foi contestado mais tarde, respondeu que aquele sermão fora confuso e que se desculpara com a congregação, posteriormente. Mas isto não resolve o problema. Amplia-o, na realidade. Que revelação é esta, que o próprio instrumento de revelação acha confusa e pela qual pede desculpas? O pior de tudo é que, com tudo isto, as idéias estapafúrdias dos pregadores são dadas como Palavra de Deus. Quando a cristologia é fraca a megalomania é enorme. Cabem aqui as palavras do Batista: “Convém que ele cresça e que eu diminua”. Ou Cristo ou o pregador. Um dos dois deve desaparecer e um dos dois deve brilhar. No neopentecostalismo brilha o pregador, produtor de uma nova revelação.

Volto a Hagin. Quem é Jesus para ele? Para ele, Jesus não apenas morreu fisicamente, mas também morreu espiritualmente. Eis uma palavra sua, neste sentido: “A morte física não removeria nossos pecados. Provou a morte por todo homem – a morte espiritual” [5]. As pessoas lêem esta declaração e passam batidas, sem se deter no que ele está dizendo, e sem fazer conexões com outras afirmações suas. Na página seguinte a esta, no mesmo livro de onde extrai esta citação, afirma ele: “A morte espiritual significa ter a natureza de Satanás” [6]. Entenderam o que ele declarou? De maneira confusa, ajuntando textos bíblicos a seu bel-prazer, desprezando as interpretações tradicionais (os neopentecostais têm ojeriza a esta palavra) Hagin formula uma teologia em que o caráter de Jesus é nivelado ao de Satanás. E as pessoas ainda gritam “Aleluia!” no culto!

Citando 2Coríntios 5.21 (“Deus tornou pecado por nós aquele que não tinha pecado, para que nele nos tornássemos justiça de Deus” - NVI), Hagin entende e ensina que Jesus se tornou pecador, como nós o somos. Eis sua afirmação: “Jesus se fez pecado. Seu espírito foi separado de Deus, e ele desceu para o inferno em nosso lugar” [7]. O texto bíblico não diz que Jesus se fez pecado, mas que o Pai o fez pecado por nós, e não que ele foi para o inferno em nosso lugar. Embora escrevendo em grego, Paulo era judeu de nascimento, estava imbuído do judaísmo, tendo sido um de seus maiores expoentes. A palavra “pecado”, hattat, no hebraico, tem um duplo significado, o pecado em si, a ofensa humana, e a oferta pelo pecado, a redenção, ato divino. A construção da sentença nos permite entender que Jesus não era pecador, por isso o Pai o tornou oferta pelo nosso pecado. A oferta pelo pecado tinha que ser pura. Jesus foi a oferta do Pai pelos nossos pecados, para expiá-lose nos apresentar inculpáveis diante de Deus. Tornar Jesus pecador como nós e fazê-lo ir ao inferno em nosso lugar é estabanamento. A arrogância de presumir-se oráculo divino e não estudar para saber exatamente o que a Bíblia diz produz coisas assim. De uma verdade tão profunda e tão comovedora se faz uma blasfêmia. E as pessoas ainda gritam “Aleluia!” no culto!

Estou consciente de que a maioria dos neopentecostais não assumiria esta declaração de Hagin nem as patuscadas grandiloqüentes de Benny Hinn. Seria um ato de desonestidade atribui-las a todos eles. Por que as cito, então? Para mostrar o balaio teológico e cristológico do neopentecostalismo. Tendo abandonado o eixo cristológico na interpretação bíblica, elevando escritos humanos ao nível de Palavra de Deus, o movimento nos agracia com muitas heresias. E tolices perigosas.


NOTAS

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[1] HAGIN, Kenneth. O Nome de Jesus. Rio de Janeiro: Graça Editorial, 1988.
[2] HAGIN, Kenneth. Redimidos da Miséria, da Enfermidade e da Morte. Rio de Janeiro: Graça Editorial, 2ª ed., 1990
[3] HAGIN, in O Nome, p. 7.
[4] Conforme HANEGRAAFF, Cristianismo em Crise. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembléias de Deus, 1996, p. 149, isto foi dito no programa “Benny Hinn”, pela TBN, 3 de outubro de 1990.
[5] HAGIN, O Nome, p. 25.
[6] Ib., ibidem, p. 26.
[7] Ib., ibidem, p. 27.

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