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quarta-feira, 22 de outubro de 2014

NINGUÉM VAI PARA O CÉU

Por Roberto de Carvalho Forte



É comum, nos dias de hoje, em grande parte das igrejas, ao tratarem sobre a escatologia, afirmarem que quando Cristo vier, a igreja irá morar no céu. Há até mesmo muitas canções que declaram isto, e pelo fato de muitos não examinarem as Escrituras quanto a tudo o que ouvem, lêem ou cantam, acabam formando sua “teologia” baseada apenas em alguns clichês ou canções, e também por conta de uma forte influência do dispensacionalismo. O cantor Lázaro, em sua música “Morar No Céu”, declara enfaticamente: “Ainda bem que eu vou morar no céu”.

Anthony Hoekema, comenta: “A partir de certos hinos, temos a impressão de que os crentes glorificados passarão a eternidade em algum céu etéreo, em algum lugar no espaço, bem longe da terra”. [1]

Mas, afinal de contas, onde a igreja habitará?

O termo “morar no céu” certamente é citado por muitos por causa da passagem em João 14, que diz: Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar. (v.2). Seria essa “morada de Deus” o céu, neste contexto? O versículo 23, deste mesmo capítulo, responde: “Jesus respondeu, e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada.”. O substantivo grego no singular μονή, e no plural μοναὶ, aparecem apenas duas vezes no NT, que correspondem à “morada” e “moradas”, respectivamente, e só são encontradas neste capítulo. Jesus disse aqui aos discípulos que subiria ao céu, mas não os deixariam órfãos, pois os enviariam o Consolador (v.16), e que faria morada nos crentes (v.23), e esta promessa já se cumpriu com a vinda do Espírito Santo. (Para um entendimento mais amplo sobre isto, sugiro a leitura de um artigo no site da Mackenzie, fonte no rodapé [2])

Mas o que vemos nas Escrituras são textos bíblicos que apontam para novo céu e nova terra, que é o caso de 2 Pe 3:13, que diz: “Mas nós, segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e nova terra, em que habita a justiça.”. Jesus disse em Mateus 5: “Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra” (v.5). E ainda em Apocalipse 21, referindo à eternidade: E vi um novo céu, e uma nova terra. Porque já o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe.” (v.1). No AT, temos esta promessa em Isaías 65: “Porque, eis que eu crio novos céus e nova terra; e não haverá mais lembrança das coisas passadas, nem mais se recordarão.” (v.17), e em Isaías 66: “Porque, como os novos céus, e a nova terra, que hei de fazer, estarão diante da minha face, diz o Senhor, assim também há de estar a vossa posteridade e o vosso nome.” (v.22). 

Hoekema, comenta: “Existe uma passagem no livro de Apocalipse que fala acerca de nosso reinado sobre a terra: ‘Digno és [Cristo] de tomar o livro e de abrir-lhe os selos, porque foste morto e com teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação e para o nosso Deus os constituíste reino e sacerdotes; e reinarão sobre a terra’ (Ap 5:9-10). Embora alguns manuscritos tragam o verbo ‘reinarão’ no tempo presente, os melhores textos trazem o tempo no futuro. O reinado sobre a terra dessa grande multidão redimida é representado aqui como a culminação da obra redentora de Cristo por seu povo.” [3]

A terra que hoje vivemos será restaurada, e não aniquilada. Como escreveu William Hendriksen: “Os céus e a terra que agora existem foram reservados para o fogo, de forma que logo os céus estarão queimando [..] serão dissolvidos e os elementos derreterão com calor fervente” [4]. E ele conclui: “O fogo não anulará o universo. Depois do fogo ainda existirão os mesmos ‘céus e terra’, mas gloriosamente renovados, como explicado em 2 Pe 3.13; Apocalipse 21:1-5.” [4]

Pedro, o apóstolo, escreve: “Mas os céus e a terra que agora existem pela mesma palavra se reservam como tesouro, e se guardam para o fogo, até o dia do juízo, e da perdição dos homens ímpios. Mas o dia do Senhor virá como o ladrão de noite; no qual os céus passarão com grande estrondo, e os elementos, ardendo, se desfarão, e a terra, e as obras que nela há, se queimarão [...] em que os céus, em fogo se desfarão, e os elementos, ardendo, se fundirão?”  (2 Pe 3:7,10,11,12). 

Depois dessa restauração, a nova Jerusalém (símbolo da Igreja de Cristo) descerá do céu à nova terra, “adereçada como uma esposa ataviada para o seu marido” (Ap 21:2) e reinará eternamente com Cristo.

Podemos afirmar, portanto, que não só teremos o céu na eternidade, mas habitaremos no Novo Céu e na Nova Terra, e Cristo será eternamente o Rei: “Eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens, pois com eles habitará, e eles serão o seu povo, e o mesmo Deus estará com eles, e será o seu Deus.” (Apocalipse 21:3)


___________
Notas:
1 – A Bíblia e o Futuro, Anthony A. Hoekema, pág. 292.
2  Jesus e as moradas na casa do Pai: interpretando monai em João 14
3 – A Bíblia e o Futuro, Anthony A. Hoekema, pág. 300.
4 – A Vida Futura Segundo a Bíblia, William Hendriksen, pág. 257.

NA IGREJA, DEIXE SUA PREFERÊNCIA MUSICAL DE FORA

Por Bobby Jamieson


O que houve com os fones de ouvido? Ou até mesmo com os intra-auriculares, seus discretos sucessores?
Desde o advento do iPhone, parece-me que mais e mais pessoas projetam suas músicas no ambiente ao seu redor, em vez de nos seus ouvidos. Eu vejo isso – aliás, eu ouço – em todo lugar: na academia, no aeroporto, no açude perto de casa em torno do qual caminho. Eu constantemente me deparo com as bolhas pessoais de Beyoncé ou Bieber de outras pessoas.
Eu poderia falar sobre como as tecnologias, a exemplo dos pequenos alto-falantes, apenas revelam a autoabsorção já presente no coração, mas não o farei. Em vez disso, há uma parábola aqui que eu desejo investigar, uma parábola que retrata a diferença entre como nós tendemos a ouvir música individualmente e como nós deveríamos lidar com a música na igreja.

Trilhas sonoras personalizadas

Essas esferas musicais projetadas retratam o fato de que, para muitas pessoas hoje, a música serve como um tipo de trilha sonora personalizada para as nossas vidas.
Por que você escuta as músicas que escuta? As razões são, provavelmente, multifacetadas e, algumas vezes, subconscientes. Em alguma medida, as escolhas estéticas da maioria das pessoas são intuitivas: você gosta porque gosta. Mas preferências musicais também são influenciadas pelo lugar onde você cresceu, o que seus pais costumavam ouvir, o que seus pais proibiam você de ouvir, e – especialmente –, o que seus amigos ouvem. E essas preferências podem mudar ao longo do tempo de maneiras radicais ou discretas.
O que você ouve também depende de como você se sente e de como você deseja se sentir. Se você estiver deprimido, uma música melancólica pode levá-lo à catarse. Se estiver fazendo exercícios, você quer manter seu sangue bombeando a todo vapor. Está-se trabalhando ou estudando, você provavelmente quer uma música que irá afastar as distrações, sem se tornar ela mesma uma distração.
E o que você ouve depende da companhia presente. Daí vêm as brigas eternas, em algumas famílias, pelo controle do som do carro.
Qual é a grande questão aqui? Na modernidade ocidental tardia, e cada vez mais pelo resto do mundo, a música funciona para muitos como uma trilha cinematográfica. Ela indica o nicho cultural das personagens, estabelece o humor, e intensifica a ação.
Que a música funcione desse modo é mais ou menos um fato da vida hoje, mas não é um fato da natureza. O consumo personalizado de música é possível apenas por causa da tecnologia e das estruturas comerciais que a viabilizam. Grosso modo, antes do advento da mídia de massa, a experiência musical da maioria das pessoas era exatamente como a de todos os seus vizinhos: eles ouviam e cantavam as canções do seu povo. As pessoas costumavam sussurrar canções populares, a herança comum de várias gerações, enquanto aravam o campo e assavam o pão. Em contraste, a cornucópia de opções que caracteriza o consumo musical de nossos dias é uma novidade do capitalismo avançado.
Isso não o torna errado. Mas significa que nós deveríamos atentar para alguns instintos programados pelo hábito do consumo personalizado e que podem precisar ser desprogramados quando entramos na igreja no domingo de manhã.

Domingo de manhã

Por quê? Porque a música na igreja está ali com um propósito bem diferente daquele pelo qual ela está em nossos iPhones.
Em Colossenses 3.16, Paulo escreve: “Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração.”  A passagem paralela em Efésios 5.18-19 nos exorta a não nos embriagarmos com vinho, mas, em vez disso, a “[enchermo-nos] do Espírito, falando entre [nós] com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor com hinos e cânticos espirituais”.
Nessas passagens, Paulo se dirige a toda a congregação. Ele ordena toda a congregação a cantar, assim como Deus frequentemente ordena seu povo a cantar-lhe ao longo do Antigo Testamento (p.ex., Salmo 9.11; 30.4; 33.3; 47.6).
Não é o grupo de louvor que toca a música à frente, enquanto todo mundo ouve ou, talvez, canta junto, como num show. Em vez disso, a igreja é o grupo de louvor. Haja o acompanhamento que houver, ele simplesmente serve e dá suporte ao canto da igreja.
Na igreja, música não é algo que consumimos, mas algo que nós criamos.
E para que exatamente essa música serve? É um meio pelo qual nós fazemos uma melodia ao Senhor e damos graças a ele. É também um meio pelo qual nós nos dirigimos uns aos outros, admoestando-nos e instruindo-nos. O nosso canto na igreja é dirigido a Deus e uns aos outros. Ele tem por alvo a glória de Deus e o bem do corpo. Como Paulo escreve em 1Coríntios 14.26, “Que fazer, pois, irmãos? Quando vos reunis, um tem salmo, outro, doutrina, [...] Seja tudo feito para edificação”.
O fato de esse canto ser corporativo, em vez de particular, não é acidental, mas essencial. Paulo ora pela igreja de Roma: “Ora, o Deus da paciência e da consolação vos conceda o mesmo sentir de uns para com os outros, segundo Cristo Jesus, para que concordemente e a uma voz glorifiqueis ao Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo” (Romanos 15.5-6). Paulo deseja que a igreja em Roma viva como um só corpo, de modo que eles possam glorificar a Deus como um só corpo. Ele deseja que o cântico deles em unidade expresse a vida de unidade deles como igreja. Nós glorificamos a Deus ao cantarmos juntos porque, em Cristo, Deus nos ajuntou.
Na igreja, a música é o meio pelo qual todos nós, como um só corpo, glorificamos o Senhor e edificamos uns aos outros ao cantar as excelências daquele que nos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz.

Diferenças

Longe de ser uma trilha sonora personalizada, a música na igreja é mais como a partitura de uma orquestra: a igreja é a orquestra, e cada membro em particular é um instrumento. Observe que, ao mudarmos da música cotidiana para a música na igreja, nós passamos do passivo ao ativo. Novamente, você não consome música na igreja; você a cria.
Nós também passamos do individual ao corporativo. O foco da música na igreja não é que você terá uma experiência espiritual individual da presença de Deus, enquanto canta ou outros tocam. Em vez disso, o foco é que a sua voz combinará com dúzias ou centenas de outras em uma só voz que louve a Deus e proclame a sua graça ao seu povo.
Quando uma orquestra se apresenta para tocar, todos sabem que é um trabalho em equipe. Dúzias de músicos tocam uma única partitura, de modo que a orquestra toca em unidade. Das dúzias de músicos vem um som unificado. Seria impensável que os membros da orquestra insistissem em tocar apenas as partes que estivessem de acordo com suas preferências pessoais. Para que os muitos soem como um só, os muitos devem abrir mão de quaisquer projetos que tenham o potencial de fragmentar a sua unidade.
Ao mudarmos da música cotidiana para o domingo, nós também passamos dos propósitos pessoais aos propósitos ordenados. No seu tempo pessoal, contanto que esteja amando a Deus e ao seu próximo, você pode fazer o que quiser com a música. Mas, como vimos, a música na igreja tem propósitos que são precisamente ordenados por Deus.
Toda a música na igreja deve habilitar a igreja para a edificação mútua e o louvor a Deus. Essa é uma questão que envolve a obediência ou a desobediência de toda a igreja à Palavra de Deus. O que mais importa na música da igreja é que ela faça a palavra de Cristo habitar ricamente na igreja. Conteúdo, portanto, é mais importante que estilo. E as questões mais importantes sobre estilo não são se ele se combina com as preferências de alguém, mas se o estilo da música serve aos propósitos divinamente ordenados de servir como louvor e admoestação para toda a igreja.

Preferências

Então, o que você deveria fazer com as suas preferências musicais ao entrar na igreja? Sem meias palavras, deixe-as do lado de fora.
Você pode ligar o seu iPod de novo assim que entrar no carro e dirigir de volta para casa. Na igreja, porém, ponha de lado as suas preferências e alegremente cante o que o corpo cante. O olho, o ouvido, a mão e o pé podem ter cada um as suas preferências, mas o corpo canta como um só.
Você deve se certificar de deixar as suas preferências na porta da igreja, primeiro, por causa das diferenças entre como nós costumamos consumir música enquanto indivíduos e como nós devemos criar música na igreja. Eu não estou sugerindo que a maioria dos cristãos pensa que pode tratar a ordem de culto da sua igreja como uma lista de reprodução do iTunes. Mas eu de fato penso que a nossa cultura de consumo musical está tão arraigada que é preciso trabalho duro para deixar de lado as preferências, em vez de insistir nelas. Estamos tão acostumados a elaborar nossas próprias trilhas sonoras que é preciso esforço para cultivar uma cultura musical na qual os muitos importam mais do que o um.
E abrir mão de nossas preferências pelo bem do corpo é exatamente o que o evangelho nos chama a fazer. O evangelho nos chama a perder para que outros possam ganhar, a considerar os outros superiores a nós mesmos, assim como Cristo fez por nós (Filipenses 2.1-11). Então, imite Cristo à medida que você canta para Cristo no corpo de Cristo. Se glorificar a Deus ao cantar é um sacrifício de louvor (Hebreus 13.15), não fique surpreso se isso custá-lo alguma coisa.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

UM CRENTE PODE APOSTATAR?

Por: R. C. Sproul



Nós podemos viver em uma cultura a qual crê que todos serão salvos, que nós somos “justificados pela morte” e que tudo de que você precisa para ir para o céu é morrer, mas a Palavra de Deus certamente não dos dá o luxo de crer nisso. Qualquer leitura rápida e honesta do Novo Testamento mostra que os apóstolos estavam convencidos de que ninguém pode ir para o céu a menos que creia somente em Cristo para a sua salvação (João 14.6; Romanos 10.9-10).

Historicamente, os cristãos evangélicos têm largamente concordado sobre esse ponto. Onde eles diferem tem sido na questão da segurança da salvação. Pessoas que concordariam que apenas aqueles que confiam em Jesus serão salvos têm, por outro lado, discordado acerca de se alguém que verdadeiramente crê em Cristo pode perder a sua salvação.

Teologicamente falando, o que estamos discutindo aqui é o conceito de apostasia. Esse termo vem de uma palavra grega que significa “estar longe de”. Quando falamos sobre aqueles que se tornaram apóstatas ou que cometeram apostasia, estamos falando daqueles que caíram da fé ou, no mínimo, da profissão de fé em Cristo que eles um dia fizeram.

Muitos crentes têm sustentado que, sim, verdadeiros cristãos podem perder a sua salvação porque há vários textos no Novo Testamento que parecem indicar que isso possa acontecer. Estou pensando, por exemplo, nas palavras de Paulo em 1Timóteo 1.18-20:

Este é o dever de que te encarrego, ó filho Timóteo, segundo as profecias de que antecipadamente foste objeto: combate, firmado nelas, o bom combate, mantendo fé e boa consciência, porquanto alguns, tendo rejeitado a boa consciência, vieram a naufragar na fé. E dentre esses se contam Himeneu e Alexandre, os quais entreguei a Satanás, para serem castigados, a fim de não mais blasfemarem.

Aqui, em meio a instruções e admoestações relativas à vida e ao ministério de Timóteo, Paulo alerta Timóteo a manter a fé e uma boa consciência, e lembrar-se daqueles que não o fizeram. O apóstolo se refere àqueles que “vieram a naufragar na fé”, homens que ele havia entregado a Satanás, “para que aprendam a não blasfemar” (ARC). O segundo ponto é uma referência à excomunhão daqueles homens por Paulo, e a passagem inteira combina uma sóbria advertência com exemplos concretos daqueles que gravemente decaíram de sua profissão cristã.

Não há dúvida de que cristãos professos podem cair, e caem radicalmente. Pensemos em homens como Pedro, por exemplo, que negou a Cristo. Mas o fato de que ele foi restaurado mostra que nem todo crente professo que cai ultrapassou o ponto em que não é mais possível retornar. Nesse particular, nós devemos distinguir uma queda séria e radical de uma queda total e definitiva. Os teólogos reformados têm notado que a Bíblia está cheia de exemplos de verdadeiros crentes que caem em pecados graves e, até mesmo, em períodos prolongados de impenitência. Então, cristãos de fato caem, e caem radicalmente. O que poderia ser mais sério do que a negação pública de Jesus Cristo por Pedro?

Mas a pergunta é: acaso essas pessoas culpadas de uma verdadeira queda são irremediavelmente caídas e eternamente perdidas, ou essa queda é uma condição temporária que irá, em última análise, ser remediada pela sua restauração? No caso de um indivíduo como Pedro, nós vemos que a sua queda foi remediada pelo seu arrependimento. Contudo, o que dizer daqueles que decaem de modo definitivo? Acaso eles foram algum dia crentes verdadeiros?

Nossa resposta a essa pergunta deve ser não. 1João 2.19 fala dos falsos mestres que haviam saído da igreja como nunca tendo sido verdadeiramente parte da igreja. João descreve a apostasia de pessoas que haviam feito uma profissão de fé, mas nunca haviam sido de fato convertidas. Além disso, nós sabemos que Deus glorifica todos aqueles a quem ele justifica (Romanos 8.29-30). Se uma pessoa tem uma verdadeira fé salvadora e é justificada, Deus irá preservar aquela pessoa.

Nesse ínterim, contudo, se o indivíduo que caiu ainda está vivo, como nós sabemos se ele é um completo apóstata? Uma coisa que nenhum de nós pode fazer é ler o coração de outras pessoas. Quando vejo um indivíduo que fez uma profissão de fé e depois a rejeita, eu não sei se ele é alguém verdadeiramente regenerado que está no meio de uma queda séria e radical, mas que em algum ponto no futuro certamente será restaurado; ou se ele é alguém que nunca foi de fato convertido, cuja profissão de fé era falsa desde o começo.

Essa questão sobre se uma pessoa pode perder a sua salvação não é uma questão abstrata. Ela nos afeta bem no âmago de nossa vida cristã, não apenas no que concerne a nossas preocupações com nossa própria perseverança, mas também com a de nossos familiares e amigos, especialmente aqueles que pareciam, por todas as evidências externas, ter feito uma profissão de fé genuína. Nós pensávamos que a profissão deles era crível, nós os abraçamos como irmãos ou irmãs, apenas para descobrirmos que eles rejeitariam aquela fé.

O que você faz, na prática, em uma situação como aquela? Primeiro, você ora e, então, você espera. Nós não sabemos o resultado final da situação, e tenho certeza de que haverá surpresas quando chegarmos ao céu. Ficaremos surpresos em ver pessoas as quais achamos que não estariam lá, e ficaremos surpresos em não ver pessoas as quais tínhamos certeza de que estariam lá, porque nós simplesmente não sabemos a condição interior de um coração humano ou de uma alma humana. Apenas Deus pode ver essa alma, transformar essa alma e preservar essa alma.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

TEOLOGIA BÍBLICA E A CRISE DA SEXUALIDADE

 Por Albert Mohler Jr.


A sociedade Ocidental está experimentando atualmente o que só pode ser descrito como uma revolução moral. Nosso código social moral e avaliação ética coletiva sobre uma questão em particular têm passado não só por alguns ajustes, mas por uma reversão completa. Aquilo que já foi condenado hoje é celebrado, e a recusa em celebrar é agora condenada.
O que torna essa revolução moral e sexual tão diferente das revoluções morais anteriores é que ela está ocorrendo em uma velocidade sem precedentes. Gerações anteriores experimentaram revoluções morais por décadas, mesmo séculos. A revolução atual está se desdobrando na velocidade da luz.
Quando a igreja responde a essa revolução, precisamos nos lembrar que os debates atuais sobre sexualidade apresentam a ela uma crise que é irredutivelmente e inescapavelmente teológica. Essa crise é similar ao tipo de crise teológica que o Gnosticismo apresentou à igreja primitiva ou a que o Pelagianismo apresentou nos tempos de Agostinho. Em outras palavras, a crise da sexualidade desafia o entendimento que a igreja tem do que é evangelho, pecado, salvação e santificação. Advogados da nova sexualidade demandam uma rescrita completa da meta-narrativa da Escritura, uma completa reordenação da teologia e uma mudança fundamental na forma em que pensamos sobre o ministério da igreja.

Por que o Método da Concordância falha

Versículos-prova são o primeiro reflexo dos protestantes conservadores em busca de uma estratégica de resgate e reafirmação teológica. Esse reflexo hermenêutico vem naturalmente aos cristãos evangélicos porque acreditamos que a Bíblia é a palavra de Deus inerrante e infalível. Entendemos que, como B. B. Warfield disse, “quando a Escritura fala, Deus fala”. Eu deveria deixar claro que esse reflexo não é completamente errado, mas também não é completamente certo. Não é inteiramente errado porque certas partes da Escritura (isso é, os “versículos-prova”) falam de questões específicas de uma forma identificável e direta.
Existem, entretanto, limitações óbvias a esse tipo de método teológico – que eu gosto de chamar de “reflexo da concordância”. O que acontece quando você está lutando com uma questão teológica para a qual nenhuma palavra correspondente aparece na sua concordância bíblica? Muitas das questões mais importantes não podem ser reduzidas a meramente encontrar palavras relevantes e seus versículos correspondentes em uma concordância. Tente procurar “transgênero” na sua concordância. Que tal “lésbica”? Ou “fertilização in vitro”? Essas certamente não estão na minha.
Não é que a Escritura não seja suficiente. O problema não é uma falha nas Escrituras, mas uma falha em nossa abordagem a ela. A abordagem da concordância à teologia produz uma Bíblia rasa, sem contexto, aliança ou narrativa principal – três fundações hermenêuticas essenciais ao entendimento correto da Escritura.

Necessário: uma teologia bíblica do corpo

Teologia bíblica é absolutamente indispensável para a igreja estabelecer uma resposta apropriada à atual crise sexual. A igreja precisa aprender a ler a Escritura de acordo com seu contexto, imersa em sua meta-narrativa e revelada progressivamente de forma pactual. Precisamos aprender a interpretar cada questão teológica por meio da meta-narrativa da Escritura de criação, queda, redenção e nova criação. Especificamente, os evangélicos precisam de uma teologia do corpo que esteja ancorada no próprio desenrolar da redenção contido na Bíblia.

Criação

Gênesis 1.26-28 indica que Deus fez o homem – diferente do resto da criação – à sua própria imagem. Essa passagem também demonstra que o propósito de Deus para a humanidade era uma existência física. Gênesis 2.7 destaca esse ponto também. Deus cria o homem do pó e então sobra nele o espírito da vida. Isso indica que nós éramos um corpo antes de sermos uma pessoa. O corpo, como se vê, não é incidental à nossa personalidade. A Adão e Eva é dada a comissão de multiplicar e dominar a terra. Seus corpos permitem, pela criação e pelo plano soberanos de Deus, cumprir essa tarefa de refletir a imagem e semelhança dEle.
A narrativa de Gênesis também sugere que o corpo vem com necessidades. Adão sentiria fome, então Deus deu a ele os frutos do jardim. Essas necessidades são uma expressão implícita na ordem criada de que Adão é finito, dependente e derivado.
Além disso, Adão teria a necessidade de companhia, então Deus deu a ele uma esposa, Eva. Tanto Adão quando Eva deveriam cumprir o mandato de multiplicarem e encherem a terra com reflexos da imagem de Deus por meio do uso apropriado da habilidade reprodutiva do corpo com o qual foram criados. Junto a isso há o prazer corporal que eles iriam experimentar quando os dois se tornassem uma só carne – isso é, um só corpo.
A narrativa de Gênesis também demonstra que o gênero é parte da bondade da criação de Deus. Gênero não é meramente uma construção sociológica imposta a seres humanos que poderiam, de outra maneira, negociar um sem número de permutações.
Mas Gênesis nos ensina que gênero foi uma criação de Deus para o nosso bem e Sua glória. Gênero tem o propósito do florescimento humano e é definido pela determinação do Criador – assim como Ele determinou quando, onde e que iríamos existir.
Em suma, Deus criou sua imagem como pessoas corpóreas. Por termos um corpo, nos é dado o dom e a mordomia da sexualidade pelo próprio Deus. Somos construídos de uma forma que testifica os propósitos de Deus nisso.
Gênesis também emoldura toda essa discussão em uma perspectiva pactual. A reprodução humana não é meramente para propagar a espécie. Pelo contrário, a reprodução destaca o fato de que Adão e Eva deveriam multiplicar para encherem a terra com a glória de Deus refletida em cada ser humano feito à Sua semelhança.
 

Queda

A queda, o segundo movimento da história redentiva, corrompe o bom presente de Deus que é o corpo. A entrada do pecado traz mortalidade ao corpo. Em termos de sexualidade, a Queda subverte os bons planos de Deus para o complementarismo sexual. O desejo de Eva é de dominar sobre seu marido (Gênesis 3.16). A liderança de Adão será dura (3.17-19). Eva experimentará muita dor no parto (3.16).
As narrativas que se seguem demonstram o desenvolvimento de práticas sexuais abomináveis, de poligamia ao estupro, que a Escritura retrata com notável franqueza. Esses relatos de Gênesis são seguidos da entrega da Lei, cuja intenção é refrear, entre outras coisas, o comportamento sexual abominável. Ela regula a sexualidade e expressões de gênero e faz pronunciamentos sobre moralidade sexual, travestismo, casamento, divórcio e uma miríade de outros assuntos fisiológicos e sexuais.
O Antigo Testamento também conecta o pecado sexual à idolatria. Adoração por meio de orgias, prostituição sacerdotal e outras distorções horríveis do belo dom de Deus que é o corpo são parte e parcela de uma adoração idólatra. A mesma conexão é feita por Paulo em Romanos 1. Tendo mudado “a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis” (Romanos 1.23), e tendo mudado “a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador” (1.25), homens e mulheres mudaram suas relações naturais uns com os outros (v. 26-27).

Redenção

Sobre a redenção, devemos notar que um dos aspectos mais importantes de nossa redenção é que ela vem por meio de um Salvador que tinha um corpo. “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (João 1.14; ver Filipenses 2.5-11). A redenção humana é alcançada pelo filho encarnado de Deus – que permanece encarnado eternamente.
Paulo indica que essa salvação inclui não apenas nossas almas, mas também nossos corpos. Romanos 6.12 fala do pecado que reina em nosso “corpo mortal” – o que implica na esperança de uma redenção corporal futura. Romanos 8.23 indica que parte de nossa esperança escatológica é “a redenção do nosso corpo”. Mesmo agora, em nossa vida de santificação, somos ordenados a apresentar nossos corpos como um sacrifício vivo em adoração (Romanos 12.2). Mais adiante, Paulo descreve o corpo redimido como um templo do Espírito Santo (1 Coríntios 6.19) e devemos entender claramente que a santificação tem efeitos no corpo.
A ética sexual do Novo Testamento, assim como no Antigo, regula nossas expressões de gênero e sexualidade. A porneia, imoralidade sexual de qualquer tipo, é condenada categoricamente por Jesus e pelo apóstolos. Assim, Paulo claramente indica à igreja de Corinto que o pecado sexual – pecados cometidos no corpo (1 Coríntios 6.18) – são o que levam a igreja e o evangelho à vergonha, porque eles proclamam ao mundo que nos assiste que o evangelho não teve efeito algum (1 Coríntios 5-6).

Nova Criação

Finalmente, chegamos ao quarto e final ato do drama da redenção – a nova criação. Em 1 Coríntios 15.42-57, Paulo nos dirige não apenas à ressurreição de nossos próprios corpos na nova criação, mas ao fato de que a ressurreição física de Cristo é a promessa e o poder dessa esperança futura. Nossa ressurreição será a experiência da glória eterna no corpo. Esse corpo será uma continuação consumada e transformada de nossa existência corporal atual, da mesma forma que o corpo de Jesus é o mesmo corpo que ele tinha na terra, embora completamente glorificado.
A nova criação não será simplesmente um recomeço do jardim. Será melhor que o Éden. Como Calvino notou, na nova criação iremos conhecer Deus não somente como Criador, mas como Redentor – e essa redenção inclui nossos corpos. Iremos reinar com Cristo de forma física, assim como ele é o Senhor encarnado e soberano.
Em termos de nossa sexualidade, enquanto o gênero ainda continuará na nova criação, a atividade sexual não. Não é que o sexo será anulado na ressurreição; pelo contrário, ele será cumprido. O banquete escatológico das bodas do Cordeiro, para onde o casamento e a sexualidade apontam, finalmente ocorrerá. Não haverá mais necessidade de encher a terra com a imagem de Deus, como era o caso de Gênesis 1. Pelo contrário, a terra será cheia do conhecimento da glória de Deus, como as águas cobrem o mar.

Teologia bíblica é indispensável

A crise da sexualidade tem demonstrado o fracasso do método teológico de muitos pastores. O “reflexo da concordância” simplesmente não é capaz de produzir o tipo de rigoroso pensamento teológico necessário nos púlpitos de hoje. Pastores e igrejas precisam aprender sobre a indispensabilidade da teologia bíblica e precisam praticar a leitura da Escritura de acordo com sua própria lógica interna – a lógica de uma história que vai da criação à nova criação. A tarefa hermenêutica perante nós é grande, mas também é indispensável à abordagem evangélica fiel da cultura.
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