VISITE OS BLOGS DESSE PESSOAL, DIVULGUE E VENHA SEGUIR TAMBÉM

PARA ACHAR UM ASSUNTO ESCREVA A PALAVRA AQUI

Carregando...

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

UM CRENTE PODE APOSTATAR?

Por: R. C. Sproul



Nós podemos viver em uma cultura a qual crê que todos serão salvos, que nós somos “justificados pela morte” e que tudo de que você precisa para ir para o céu é morrer, mas a Palavra de Deus certamente não dos dá o luxo de crer nisso. Qualquer leitura rápida e honesta do Novo Testamento mostra que os apóstolos estavam convencidos de que ninguém pode ir para o céu a menos que creia somente em Cristo para a sua salvação (João 14.6; Romanos 10.9-10).

Historicamente, os cristãos evangélicos têm largamente concordado sobre esse ponto. Onde eles diferem tem sido na questão da segurança da salvação. Pessoas que concordariam que apenas aqueles que confiam em Jesus serão salvos têm, por outro lado, discordado acerca de se alguém que verdadeiramente crê em Cristo pode perder a sua salvação.

Teologicamente falando, o que estamos discutindo aqui é o conceito de apostasia. Esse termo vem de uma palavra grega que significa “estar longe de”. Quando falamos sobre aqueles que se tornaram apóstatas ou que cometeram apostasia, estamos falando daqueles que caíram da fé ou, no mínimo, da profissão de fé em Cristo que eles um dia fizeram.

Muitos crentes têm sustentado que, sim, verdadeiros cristãos podem perder a sua salvação porque há vários textos no Novo Testamento que parecem indicar que isso possa acontecer. Estou pensando, por exemplo, nas palavras de Paulo em 1Timóteo 1.18-20:

Este é o dever de que te encarrego, ó filho Timóteo, segundo as profecias de que antecipadamente foste objeto: combate, firmado nelas, o bom combate, mantendo fé e boa consciência, porquanto alguns, tendo rejeitado a boa consciência, vieram a naufragar na fé. E dentre esses se contam Himeneu e Alexandre, os quais entreguei a Satanás, para serem castigados, a fim de não mais blasfemarem.

Aqui, em meio a instruções e admoestações relativas à vida e ao ministério de Timóteo, Paulo alerta Timóteo a manter a fé e uma boa consciência, e lembrar-se daqueles que não o fizeram. O apóstolo se refere àqueles que “vieram a naufragar na fé”, homens que ele havia entregado a Satanás, “para que aprendam a não blasfemar” (ARC). O segundo ponto é uma referência à excomunhão daqueles homens por Paulo, e a passagem inteira combina uma sóbria advertência com exemplos concretos daqueles que gravemente decaíram de sua profissão cristã.

Não há dúvida de que cristãos professos podem cair, e caem radicalmente. Pensemos em homens como Pedro, por exemplo, que negou a Cristo. Mas o fato de que ele foi restaurado mostra que nem todo crente professo que cai ultrapassou o ponto em que não é mais possível retornar. Nesse particular, nós devemos distinguir uma queda séria e radical de uma queda total e definitiva. Os teólogos reformados têm notado que a Bíblia está cheia de exemplos de verdadeiros crentes que caem em pecados graves e, até mesmo, em períodos prolongados de impenitência. Então, cristãos de fato caem, e caem radicalmente. O que poderia ser mais sério do que a negação pública de Jesus Cristo por Pedro?

Mas a pergunta é: acaso essas pessoas culpadas de uma verdadeira queda são irremediavelmente caídas e eternamente perdidas, ou essa queda é uma condição temporária que irá, em última análise, ser remediada pela sua restauração? No caso de um indivíduo como Pedro, nós vemos que a sua queda foi remediada pelo seu arrependimento. Contudo, o que dizer daqueles que decaem de modo definitivo? Acaso eles foram algum dia crentes verdadeiros?

Nossa resposta a essa pergunta deve ser não. 1João 2.19 fala dos falsos mestres que haviam saído da igreja como nunca tendo sido verdadeiramente parte da igreja. João descreve a apostasia de pessoas que haviam feito uma profissão de fé, mas nunca haviam sido de fato convertidas. Além disso, nós sabemos que Deus glorifica todos aqueles a quem ele justifica (Romanos 8.29-30). Se uma pessoa tem uma verdadeira fé salvadora e é justificada, Deus irá preservar aquela pessoa.

Nesse ínterim, contudo, se o indivíduo que caiu ainda está vivo, como nós sabemos se ele é um completo apóstata? Uma coisa que nenhum de nós pode fazer é ler o coração de outras pessoas. Quando vejo um indivíduo que fez uma profissão de fé e depois a rejeita, eu não sei se ele é alguém verdadeiramente regenerado que está no meio de uma queda séria e radical, mas que em algum ponto no futuro certamente será restaurado; ou se ele é alguém que nunca foi de fato convertido, cuja profissão de fé era falsa desde o começo.

Essa questão sobre se uma pessoa pode perder a sua salvação não é uma questão abstrata. Ela nos afeta bem no âmago de nossa vida cristã, não apenas no que concerne a nossas preocupações com nossa própria perseverança, mas também com a de nossos familiares e amigos, especialmente aqueles que pareciam, por todas as evidências externas, ter feito uma profissão de fé genuína. Nós pensávamos que a profissão deles era crível, nós os abraçamos como irmãos ou irmãs, apenas para descobrirmos que eles rejeitariam aquela fé.

O que você faz, na prática, em uma situação como aquela? Primeiro, você ora e, então, você espera. Nós não sabemos o resultado final da situação, e tenho certeza de que haverá surpresas quando chegarmos ao céu. Ficaremos surpresos em ver pessoas as quais achamos que não estariam lá, e ficaremos surpresos em não ver pessoas as quais tínhamos certeza de que estariam lá, porque nós simplesmente não sabemos a condição interior de um coração humano ou de uma alma humana. Apenas Deus pode ver essa alma, transformar essa alma e preservar essa alma.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

TEOLOGIA BÍBLICA E A CRISE DA SEXUALIDADE

 Por Albert Mohler Jr.


A sociedade Ocidental está experimentando atualmente o que só pode ser descrito como uma revolução moral. Nosso código social moral e avaliação ética coletiva sobre uma questão em particular têm passado não só por alguns ajustes, mas por uma reversão completa. Aquilo que já foi condenado hoje é celebrado, e a recusa em celebrar é agora condenada.
O que torna essa revolução moral e sexual tão diferente das revoluções morais anteriores é que ela está ocorrendo em uma velocidade sem precedentes. Gerações anteriores experimentaram revoluções morais por décadas, mesmo séculos. A revolução atual está se desdobrando na velocidade da luz.
Quando a igreja responde a essa revolução, precisamos nos lembrar que os debates atuais sobre sexualidade apresentam a ela uma crise que é irredutivelmente e inescapavelmente teológica. Essa crise é similar ao tipo de crise teológica que o Gnosticismo apresentou à igreja primitiva ou a que o Pelagianismo apresentou nos tempos de Agostinho. Em outras palavras, a crise da sexualidade desafia o entendimento que a igreja tem do que é evangelho, pecado, salvação e santificação. Advogados da nova sexualidade demandam uma rescrita completa da meta-narrativa da Escritura, uma completa reordenação da teologia e uma mudança fundamental na forma em que pensamos sobre o ministério da igreja.

Por que o Método da Concordância falha

Versículos-prova são o primeiro reflexo dos protestantes conservadores em busca de uma estratégica de resgate e reafirmação teológica. Esse reflexo hermenêutico vem naturalmente aos cristãos evangélicos porque acreditamos que a Bíblia é a palavra de Deus inerrante e infalível. Entendemos que, como B. B. Warfield disse, “quando a Escritura fala, Deus fala”. Eu deveria deixar claro que esse reflexo não é completamente errado, mas também não é completamente certo. Não é inteiramente errado porque certas partes da Escritura (isso é, os “versículos-prova”) falam de questões específicas de uma forma identificável e direta.
Existem, entretanto, limitações óbvias a esse tipo de método teológico – que eu gosto de chamar de “reflexo da concordância”. O que acontece quando você está lutando com uma questão teológica para a qual nenhuma palavra correspondente aparece na sua concordância bíblica? Muitas das questões mais importantes não podem ser reduzidas a meramente encontrar palavras relevantes e seus versículos correspondentes em uma concordância. Tente procurar “transgênero” na sua concordância. Que tal “lésbica”? Ou “fertilização in vitro”? Essas certamente não estão na minha.
Não é que a Escritura não seja suficiente. O problema não é uma falha nas Escrituras, mas uma falha em nossa abordagem a ela. A abordagem da concordância à teologia produz uma Bíblia rasa, sem contexto, aliança ou narrativa principal – três fundações hermenêuticas essenciais ao entendimento correto da Escritura.

Necessário: uma teologia bíblica do corpo

Teologia bíblica é absolutamente indispensável para a igreja estabelecer uma resposta apropriada à atual crise sexual. A igreja precisa aprender a ler a Escritura de acordo com seu contexto, imersa em sua meta-narrativa e revelada progressivamente de forma pactual. Precisamos aprender a interpretar cada questão teológica por meio da meta-narrativa da Escritura de criação, queda, redenção e nova criação. Especificamente, os evangélicos precisam de uma teologia do corpo que esteja ancorada no próprio desenrolar da redenção contido na Bíblia.

Criação

Gênesis 1.26-28 indica que Deus fez o homem – diferente do resto da criação – à sua própria imagem. Essa passagem também demonstra que o propósito de Deus para a humanidade era uma existência física. Gênesis 2.7 destaca esse ponto também. Deus cria o homem do pó e então sobra nele o espírito da vida. Isso indica que nós éramos um corpo antes de sermos uma pessoa. O corpo, como se vê, não é incidental à nossa personalidade. A Adão e Eva é dada a comissão de multiplicar e dominar a terra. Seus corpos permitem, pela criação e pelo plano soberanos de Deus, cumprir essa tarefa de refletir a imagem e semelhança dEle.
A narrativa de Gênesis também sugere que o corpo vem com necessidades. Adão sentiria fome, então Deus deu a ele os frutos do jardim. Essas necessidades são uma expressão implícita na ordem criada de que Adão é finito, dependente e derivado.
Além disso, Adão teria a necessidade de companhia, então Deus deu a ele uma esposa, Eva. Tanto Adão quando Eva deveriam cumprir o mandato de multiplicarem e encherem a terra com reflexos da imagem de Deus por meio do uso apropriado da habilidade reprodutiva do corpo com o qual foram criados. Junto a isso há o prazer corporal que eles iriam experimentar quando os dois se tornassem uma só carne – isso é, um só corpo.
A narrativa de Gênesis também demonstra que o gênero é parte da bondade da criação de Deus. Gênero não é meramente uma construção sociológica imposta a seres humanos que poderiam, de outra maneira, negociar um sem número de permutações.
Mas Gênesis nos ensina que gênero foi uma criação de Deus para o nosso bem e Sua glória. Gênero tem o propósito do florescimento humano e é definido pela determinação do Criador – assim como Ele determinou quando, onde e que iríamos existir.
Em suma, Deus criou sua imagem como pessoas corpóreas. Por termos um corpo, nos é dado o dom e a mordomia da sexualidade pelo próprio Deus. Somos construídos de uma forma que testifica os propósitos de Deus nisso.
Gênesis também emoldura toda essa discussão em uma perspectiva pactual. A reprodução humana não é meramente para propagar a espécie. Pelo contrário, a reprodução destaca o fato de que Adão e Eva deveriam multiplicar para encherem a terra com a glória de Deus refletida em cada ser humano feito à Sua semelhança.
 

Queda

A queda, o segundo movimento da história redentiva, corrompe o bom presente de Deus que é o corpo. A entrada do pecado traz mortalidade ao corpo. Em termos de sexualidade, a Queda subverte os bons planos de Deus para o complementarismo sexual. O desejo de Eva é de dominar sobre seu marido (Gênesis 3.16). A liderança de Adão será dura (3.17-19). Eva experimentará muita dor no parto (3.16).
As narrativas que se seguem demonstram o desenvolvimento de práticas sexuais abomináveis, de poligamia ao estupro, que a Escritura retrata com notável franqueza. Esses relatos de Gênesis são seguidos da entrega da Lei, cuja intenção é refrear, entre outras coisas, o comportamento sexual abominável. Ela regula a sexualidade e expressões de gênero e faz pronunciamentos sobre moralidade sexual, travestismo, casamento, divórcio e uma miríade de outros assuntos fisiológicos e sexuais.
O Antigo Testamento também conecta o pecado sexual à idolatria. Adoração por meio de orgias, prostituição sacerdotal e outras distorções horríveis do belo dom de Deus que é o corpo são parte e parcela de uma adoração idólatra. A mesma conexão é feita por Paulo em Romanos 1. Tendo mudado “a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis” (Romanos 1.23), e tendo mudado “a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador” (1.25), homens e mulheres mudaram suas relações naturais uns com os outros (v. 26-27).

Redenção

Sobre a redenção, devemos notar que um dos aspectos mais importantes de nossa redenção é que ela vem por meio de um Salvador que tinha um corpo. “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (João 1.14; ver Filipenses 2.5-11). A redenção humana é alcançada pelo filho encarnado de Deus – que permanece encarnado eternamente.
Paulo indica que essa salvação inclui não apenas nossas almas, mas também nossos corpos. Romanos 6.12 fala do pecado que reina em nosso “corpo mortal” – o que implica na esperança de uma redenção corporal futura. Romanos 8.23 indica que parte de nossa esperança escatológica é “a redenção do nosso corpo”. Mesmo agora, em nossa vida de santificação, somos ordenados a apresentar nossos corpos como um sacrifício vivo em adoração (Romanos 12.2). Mais adiante, Paulo descreve o corpo redimido como um templo do Espírito Santo (1 Coríntios 6.19) e devemos entender claramente que a santificação tem efeitos no corpo.
A ética sexual do Novo Testamento, assim como no Antigo, regula nossas expressões de gênero e sexualidade. A porneia, imoralidade sexual de qualquer tipo, é condenada categoricamente por Jesus e pelo apóstolos. Assim, Paulo claramente indica à igreja de Corinto que o pecado sexual – pecados cometidos no corpo (1 Coríntios 6.18) – são o que levam a igreja e o evangelho à vergonha, porque eles proclamam ao mundo que nos assiste que o evangelho não teve efeito algum (1 Coríntios 5-6).

Nova Criação

Finalmente, chegamos ao quarto e final ato do drama da redenção – a nova criação. Em 1 Coríntios 15.42-57, Paulo nos dirige não apenas à ressurreição de nossos próprios corpos na nova criação, mas ao fato de que a ressurreição física de Cristo é a promessa e o poder dessa esperança futura. Nossa ressurreição será a experiência da glória eterna no corpo. Esse corpo será uma continuação consumada e transformada de nossa existência corporal atual, da mesma forma que o corpo de Jesus é o mesmo corpo que ele tinha na terra, embora completamente glorificado.
A nova criação não será simplesmente um recomeço do jardim. Será melhor que o Éden. Como Calvino notou, na nova criação iremos conhecer Deus não somente como Criador, mas como Redentor – e essa redenção inclui nossos corpos. Iremos reinar com Cristo de forma física, assim como ele é o Senhor encarnado e soberano.
Em termos de nossa sexualidade, enquanto o gênero ainda continuará na nova criação, a atividade sexual não. Não é que o sexo será anulado na ressurreição; pelo contrário, ele será cumprido. O banquete escatológico das bodas do Cordeiro, para onde o casamento e a sexualidade apontam, finalmente ocorrerá. Não haverá mais necessidade de encher a terra com a imagem de Deus, como era o caso de Gênesis 1. Pelo contrário, a terra será cheia do conhecimento da glória de Deus, como as águas cobrem o mar.

Teologia bíblica é indispensável

A crise da sexualidade tem demonstrado o fracasso do método teológico de muitos pastores. O “reflexo da concordância” simplesmente não é capaz de produzir o tipo de rigoroso pensamento teológico necessário nos púlpitos de hoje. Pastores e igrejas precisam aprender sobre a indispensabilidade da teologia bíblica e precisam praticar a leitura da Escritura de acordo com sua própria lógica interna – a lógica de uma história que vai da criação à nova criação. A tarefa hermenêutica perante nós é grande, mas também é indispensável à abordagem evangélica fiel da cultura.

sábado, 13 de setembro de 2014

BRASIL UM PAÍS RACISTA


"O Governo Brasileiro reconheceu e reconhece sua responsabilidade e criou a Secretaria de Políticas Públicas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), em 2003."
O comentário, enviado à BBC Brasil pela secretaria com status de ministério, responde a um relatório divulgado nesta sexta-feira pela ONU. O órgão mundial afirma que o racismo "permeia todas as áreas da vida" no Brasil.
Tanto a ONU quanto o governo, entretanto, também destacam avanços nas políticas para afrodescendentes no Brasil.
Segundo o Planalto, a implementação de cotas raciais na educação e no serviço público e a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra foram medidas importantes no processo de reversão deste problema histórico no país.
A ONU concorda e diz que os principais avanços ocorreram durante o governo do ex-presidente Lula.
As críticas do relatório e o posterior "mea culpa" são resultado da visita de um grupo de trabalho da ONU a Brasília, Pernambuco, Bahia, São Paulo e Rio de Janeiro, em dezembro do ano passado.
Os especialistas foram recebidos por representantes do governo, do judiciário e de organizações da sociedade civil.

Desigualdade

O texto do relatório informa que "o racismo permeia todas as áreas da vida no país" e que é difícil para os negros discutir o tema, já que "o país vive um mito de democracia racial".
Segundo a ONU, o desemprego é 50% maior entre afrodescendentes e a média salarial dos brancos, por sua vez, é o dobro do salário dos negros.
Enquanto a expectativa de vida entre os negros não passa de 66 anos, a dos brancos é seis anos maior. Mais da metade dos negros não tem saneamento básico adequado no país - a média chega a 3 em cada 10 brancos.
Crianças no complexo da Maré, no Rio de Janeiro
As Nações Unidas reconhecem que o país conta com "diversas instituições para a promoção da igualdade social" e "diversos avanços expressivos foram feitos na legislação sobre a igualdade racial", especialmente nos últimos dez anos.

"Os mecanismos de reprodução das desigualdades raciais se atualizam no Brasil. O reconhecimento do papel estruturante do racismo é o principal fator para que a atual gestão apoie decididamente ações afirmativas para produzir as mudanças que, por longo tempo, foram impedidas de acontecer na sociedade brasileira", disseram os porta-vozes do governo à reportagem da BBC Brasil.
"Esses ganhos ainda são acompanhados pela persistência das desigualdades raciais", afirma o governo federal. Segundo o Planalto, as diferenças entre brancos e negros demandam "um renovado esforço de articulação de iniciativas capazes de neutralizar seus efeitos deletérios sobre as oportunidades de inclusão que se abrem no Brasil de hoje".
"É um processo", diz a pasta.

'Ideologia de embranquecimento'

Entre os resultados da pesquisa, a ONU aponta que a educação é uma das principais áreas de discriminação e uma das principais fontes de desigualdade. "É importante que se desconstrua a ideologia de embranquecimento que continua a afetar uma parcela significante da sociedade", diz a ONU.
Segundo o órgão internacional, "políticos conservadores desvalorizam ações afirmativas, políticas e leis" direcionadas aos afrodescendentes - que têm menos acesso à saúde e educação, menor expectativa de vida, menos cargos públicos e maior presença nas prisões.
O relatório critica as administrações estaduais e municipais, onde "faltam recursos materiais e financeiros para que as atividades possam ser conduzidas".
O órgão ainda destaca o trabalho de redução do racismo institucional em Pernambuco, com trabalhos de sensibilização e capacitação de policiais, e um grupo de trabalho contra o racismo criado pelo Ministério Público pernambucano.
Segundo o órgão internacional, o foco nos policiais é "importante para transformar a cultura de violência sob pretexto de segurança nacional" - três negros morreram em cada quatro homicídios cometidos no Brasil em 2010.

Justiça

A dificuldade de acesso à justiça pela população negra é, para a ONU, um dos pontos-chave da discussão.
Segundo o órgão, como a sociedade ainda nega a existência de praticas racistas, estas questões acabam não chegando no judiciário e, quando chegam, dificilmente são penalizadas. As Nações Unidas indicam ainda que a polícia atua com critérios "baseados na cor da pele" dos cidadãos.
"O papel da polícia é garantir a segurança pública", diz o relatório. "Mas o racismo institucional, a discriminação e a cultura de violência levam a práticas de tortura, chantagem, extorsão e humilhação, em especial contra afro-brasileiros."
Ainda segundo o documento, "o direito à vida sem violência não é garantido pelo Estado".

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

QUEM SÃO OS EVANGÉLICOS

Por Ricardo Alexandre


Homofóbicos, cortejados pela presidente, fundamentalistas. Massa de manobra de Silas Malafaia, conservadores, determinantes no segundo turno das eleições. De tanto que se falou sobre os evangélicos nas últimas semanas, nos jornais e nas redes sociais, talvez caiba uma pergunta: afinal, quem são “os evangélicos”?

A resposta mais honesta não poderia ser mais frustrante: os evangélicos são qualquer pessoa, todo mundo, ou, mais especificamente, ninguém. São uma abstração, uma caricatura pintada a partir do que vemos zapeando pelos canais abertos misturado ao que lemos de bizarro nos tabloides da internet com o que nosso preconceito manda reforçar. Dizer que “o voto dos evangélicos decidirá a eleição” é tão estúpido quanto dizer a obviedade de que 22,2% dos brasileiros decidirão a eleição. Dizer que “os evangélicos são preconceituosos”, significa dizer que o ser humano é preconceituoso. É não dizer nada, na verdade.

Acreditar que há uma hegemonia de pensamento, de comportamento ou de doutrina evangélica é, em parte, exatamente acreditar no que Silas Malafaia gosta de repetir, mas é, em parte, desconhecer a história. A diversidade de pensamento é a razão de existir da reforma protestante. E continuou sendo pelos séculos seguintes, quando as igrejas reformadas do século 16 deram origem ao movimento evangélico, aos pentecostais, e estes aos neopentecostais, todos microdivididos até o limite do possível, graças, novamente, à diversidade de pensamento – sobre forma de governo, vocação e pequenos e grandes pontos doutrinários. E boa parte dessas denominações não tem sequer organização central nem “presidência”, muito menos representantes possíveis, com as decisões sendo tomadas nas comunidades locais, por votação democrática.

Assim como não existe “os evangélicos” também não existe “os pentecostais”, nem “os assembleianos”: dizer que Malafaia é o “papa da Marina Silva” como disse Leonardo Boff, apenas porque ambos são membros da Assembléia de Deus, é ignorar que, por trás dos 12,3 milhões de membros detectados pelo IBGE, a denominação é rachada entre ministérios Belém, Madureira, Santos, Bom Retiro, Ipiranga, Perus e diversos outros, cada um com seu líder, sua politicagem e sua aplicação doutrinária. A Assembléia de Deus Vitória em Cristo de Malafaia, aliás, sequer pertence à Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil.

Ignorância parecida se manifesta em relação ao uso do termo “fundamentalista”, como sinônimo de “literalista”, aquele incapaz de metaforizar as verdades morais dos livros da Bíblia. A teologia cristã debate há dois mil anos sobre a observação, interpretação e aplicação dos escritos sagrados, quais são alegóricos e quais são históricos, quais são “poesias” e quais devem ser tomados ao pé da letra. O deputado Jean Wyllys, colunista da Carta Capital, do alto de alguma autoridade teológica presumida, já chegou à sua conclusão: o que não for leitura liberal, é fundamentalista e, portanto, uma ameaça às minorias oprimidas. (Liberalismo teológico é uma corrente do final do século 19 que propôs uma leitura crítica das escrituras, completamente alegorizada, negando sua autoridade sobrenatural, a existência dos milagres, e separando história e teologia).

Só que isso simplesmente não é verdade. Dentro da multifacetação das igrejas de tradição evangélicas, há as chamadas “inclusivas”, mas há diversas igrejas históricas, tradicionais, teologicamente ortodoxas, que acreditam nos absolutos da “sola scriptura” da Reforma Protestante, mas que têm política acolhedora e amorosa com as minorias. Algumas criaram pastorais para tratar da questão homossexual, outras trabalham para integrá-los em seus quadros leigos; ou, ainda, como disse o pastor batista Ed René Kivitz, estão mais dispostos a aprender como tratar “uma pessoa que está diante de mim dizendo ter sido rejeitado pela família, pela igreja” do que discutir a literalidade dos textos do Velho Testamento.

O panorama da questão pode ser melhor entendido em Entre a cruz e o arco-íris: A complexa relação dos cristãos com a Homoafetividade (de Marília de Camargo César, da Editora Autêntica), livro que tive a honra de editar. Nele, o pastor batista e sociólogo americano Tony Campolo, ex-conselheiro do presidente Bill Clinton, diz: “Se você vai dizer à comunidade homossexual que em nome de Jesus você a ama (...) não teria que lutar por políticas públicas que demonstrem que você as ama? Pode haver amor sem justiça? Eu luto pela justiça em favor de gays e lésbicas, porque em nome de Jesus Cristo eu os amo.” Campolo, entretanto, faz distinção entre direitos e casamento: “O governo não deve se envolver nem declarar, de forma alguma, o que é casamento, quem pode ou não se casar”, ele disse. “Governo existe para garantir os direitos das pessoas. Casamento é um sacramento da igreja – governos não devem decidir quem deve ou não receber esse sacramento.” Campolo acredita que esta será a visão dominante entre cristãos americanos “em cinco ou seis anos”.

Entre os evangélicos brasileiros, há quem pense desde já como Campolo – distinguindo união civil de casamento. Há quem pense de forma ainda mais radical: que a união civil, com implicações patrimoniais e status de família, deveria valer não apenas para casais homossexuais, mas para irmãos, primos ou quem quer que se entenda como família. Há quem defenda o acolhimento dos gays nas igrejas, mas que se reserve o celibato para eles. Quem, embora sabendo que mais da metade das famílias brasileiras já não são no formato pai-mãe-filhos, ainda luta para restabelecer esse padrão idealizado. Há, sim, quem acredite que o seu conjunto de doutrinas e o seu modo de vida são fundamentais. Há aqueles ainda que, enquanto discutimos aqui, estão mais preocupados se a melhor tradução do grego é a João Ferreira de Almeida ou a Nova Versão Internacional. E há quem acorde diariamente acreditando ser o porta-voz do “povo de Deus”, pague espaço em redes de televisão para multiplicar esse delírio (mas, a julgar pelo 1% de intenção de voto do Pastor Everaldo, somente ativistas gays e jornalistas desmotivados acreditam nesse discurso). Esses são “os evangélicos”.

Na fatídica sexta-feira em que o PSB divulgou seu programa de governo, enquanto Malafaia gritava no Twitter em CAPSLOCK furibundo, o pastor presbiteriano Marcos Botelho, postou: “Marina, que bom que vc recebeu os líderes do movimento LGBTs, receba as reivindicações com a tua coerência e discernimento de sempre e um compromisso com o estado laico que é sua bandeira. Vamos colocar uma pedra em cima dessa polarização ridícula entre gays e evangélicos que só da IBOPE para líderes políticos e pastores oportunistas.”

Botelho não representa “os evangélicos” porque não existe “os evangélicos”. Mas Marcos Botelho existe e é evangélico. Assim como existe William Lane Craig, o filósofo que convida periodicamente Richard Dawkins para um debate público, do qual este sempre se esquiva; existe o geneticista Francis Collins vencendo o William Award da Sociedade Americana de Genética Humana; existe o presidente Jimmy Carter, dando aula na escola bíblica no domingo e sendo entrevistado para a capa da Rolling Stone por Hunter Thompson na segunda-feira; existe o pastor congregacional inglês John Harvard tirando dinheiro do próprio bolso para fundar uma universidade “para a glória de Deus” nos Estados Unidos que leva seu sobrenome até hoje; existe o pastor batista Martin Luther King como o maior ativista de todos os tempos; existe o jovem paulista Marco Gomes, o “melhor profissional de marketing do mundo”, pedindo licença para “falar uma coisa sobre os evangélicos”. E existe o Feliciano, o Edir Macedo, a Aline Barros, o Thalles Roberto, o Silas Malafaia e o mercado gospel. Como existe bancada evangélica, mas existem os que lutaram pela “separação entre igreja e estado” na constituição, e existem os que acreditam que levar Jesus Cristo para a política é trabalhar não para si, mas para os menos favorecidos.

Existe o amor e existe a justiça, como existe o preconceito, o dogmatismo, o engano, o medo, a vaidade e a corrupção. Não porque somos evangélicos, mas porque somos humanos.

* Ricardo Alexandre é jornalista e escritor, radialista e blogueiro, Prêmio Jabuti 2010, ex-diretor de redação das revistas Bizz, Época São Paulo e Trip. E é membro da Igreja Batista Água Viva em Vinhedo, interior de São Paul
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
NÃO PARE AQUI VÁ PARA OS TEXTOS MAIS ANTIGOS.