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terça-feira, 30 de agosto de 2011

POR QUE BATIZO POR ASPERSÃO (VI)


Joelson Gomes


O SIGNIFICADO DA PALAVRA BATISMO

Muitos dizem que o significado da palavra batismo é imergir, e se ela significa imergir então batizar é mergulhar. Será que é assim? Observe uma análise de algumas palavras pertinentes ao caso:

a) As autoridades no idioma grego dão como definição para estas palavras um significado variado. Por exemplo:

1- O famoso A Greek-English Lexicon the New Testament and Other Early Christian Literature, traz o seguintes significados: – 1.βαπτιζω (baptizô): mergulhar, imergir. Mergulhar a si mesmo, lavar, ensopar. 2. O ritual de lavagens dos judeus (Mc. 7:4; Lc. 11:38); 2.βαπτισμός (baptismós) - mergulho, lavagem de pratos (Mc. 7:4, 8). Ritual de lavagens (Hb. 9:10).[1]

2- O grande dicionarista Joseph Thayer observa sobre os termos: 1.βαπτιζω (baptizô) - mergulhar repetidamente, imergir, submergir, lavar inteiramente com água; 2.βαπτισμός (baptismós) - uma lavagem, purificação efetuada com água (Mc. 7:4,8), lavagens prescritas na lei mosaica (Hb. 9:10).[2]

3- Carlo Rusconi apresenta as seguintes definições para os termos: 1.βαπτιζω (baptizô) – lavar, imergir, fazer abluções; 2.βαπτισμός (baptismós) - ato de lavar, banho, ablução; 3.βαπτω (baptô) – imergir, embeber, tingir (Ap. 19:13). [3]

4- Elsa Tamez L. e Irene W. de Foukes definem– 1.βαπτω (baptô): molhar, empapar. 2.Βαπτιζω (baptizô) – batizar, lavar-se em forma ritual. 3.Βαπτισμός (baptismós) – cerimônia de purificação, batismo, ablução, lavamento. [4]

b) Deve-se notar também que a palavra βαπτίζω (baptízô) quando unida a água nos evangelhos sempre se refere a lavagem para um propósito religioso, seja ao batismo cristão, ou as cerimônias judaicas, mas não está estritamente implicada a imersão. A transição do idioma grego, do Antigo para o Novo Testamento, traz algumas mudanças em palavras, e βαπτω (baptô) e βαπτίζω (baptízô) estão entre estas palavras que mudam. “Juntamente com bápto, “imergir”, o uso do verbo baptizo é alargado: ele perde o significado clássico de “imergir, submergir” e transforma-se em um termo técnico para indicar a administração do batismo (báptisma e baptismós)”.[5]

Existem várias passagens para provar isso.

a) Mc. 7: 3-4:

Os fariseus e todos os judeus não comem sem lavar as mãos cerimonialmente (νίψωνται), apegando-se, assim, à tradição dos líderes religiosos. Quando chegam da rua, não comem sem antes se lavarem (βαπτίσωνται). E observam muitas outras tradições, tais como o lavar (βαπτισμούς) de copos, jarros e vasilhas de metal) (NVI).

A atenção a este texto é essencial, aqui. Marcos está se referindo a cerimônia judaica de sempre lavar as mãos antes das refeições. No verso 3 ele usa o verbo νίπτω (niptô = lavar, lavar uma parte do corpo, cf. Mt 6:17) (νίψωνται = nipsôntai),[6] mas no verso 4, continuando a falar da mesma cerimônia de lavagem das mãos, ele usa o verbo βαπτίζω (baptízô) (βαπτίσωνται = baptísôntai), e o substantivo βαπτίσμός (baptísmós) (βαπτισμούς = baptismoús). Assim, o uso que Marcos faz destas palavras indiscriminadamente, mostra que as mesmas podiam ser usadas como sinônimas na sua época, para descrever a mesma cerimônia de lavagem das mãos.[7] Para Marcos batizar é a mesma coisa que lavar, não apenas imergir, pois estas cerimônias de lavagens das mãos não eram feitas mergulhando as mesmas na água. Comentando Mt. 15:2, onde aparece uma referência a mesma prática e é usada a palavra grega νίπτω (niptô), Fritz Rienecker observa:

Havia minuciosas e meticulosas prescrições que diziam como devia acontecer a lavagem das mãos. Duas vezes tinha de ser derramada água sobre as mãos até os pulsos e partir de um recipiente qualquer (...). Para cada ablução estava prescrito um pouco mais de um decilitro de água (...). Além disso havia uma série de prescrições sobre a forma da vasilha, sobre a maneira de derramar a água, sobre quantas pessoas podiam ser lavadas simultaneamente, quem era indicado para derramar a água de forma válida, etc., etc (Grifos meus).[8]

Exemplos assim deixam claro que os evangelhos não empregam a palavra βαπτίζω (baptízô) apenas com o sentido de imergir.

b) Lucas, ao escrever sobre esta cerimônia de lavagem das mãos descrita acima, usa também a mesma palavra.

Mas o fariseu, notando que Jesus não se lavara cerimonialmente (έβαπτσθη ) [9]antes da refeição, ficou surpreso (11:38 NVI).

Estas cerimônias de lavagem das mãos eram feitas com alguém derramando água sobre as mãos de outro (cf. 2Rs. 3:11), e não imergindo as mesmas em qualquer recipiente como já visto.

c) Atos dos Apóstolos. O livro de Atos também faz um emprego da palavra βαπτιζω esclarecedor.

Pois João batizou (έβάπτισεν) com água, mas dentro de poucos dias vocês serão batizados com o Espírito Santo (At.1:5).

A comparação de Jesus é clara. Ele esclarece que como João batizou com água, os discípulos iam ser batizados com o Espírito Santo. Acontece que quando Pedro vai explicar este batismo prometido por Jesus e cumprido no Pentecostes (At. 2: 1-4), ele não diz que os discípulos foram imersos no Espírito Santo, mas que o Espírito foi derramado (έξέχεεν = éxécheen) sobre eles [10], At.2:33; cf.2:17. Vd. Ez. 36:25; Jl. 2:28-29; Lc. 24:49). O batismo, portanto, foi um derramamento. Assim, derramar é claramente empregado como sinônimo de batizar.

d). A Carta aos Hebreus. Neste texto existem algumas passagens que convêm prestar atenção.

Portanto, deixemos os ensinos elementares a respeito de Cristo e avancemos para a maturidade, sem lançar novamente o fundamento do arrependimento de atos que conduzem à morte, da fé em Deus, da instrução a respeito de batismos (βαπτίσμών = baptísmôn) da imposição de mãos, da ressurreição dos mortos e do juízo eterno (Hb. 6:2. NVI).

O autor aqui usa a palavra batismo no plural, é lógico, portanto, que ele não trata do batismo cristão, pois os cristãos não praticavam muitos batismos, só um. Ele trata então das purificações judaicas do Antigo Testamento (Lv. 10: 8-11. 11; 12-15; 14:7; 15: 5; 16: 24-28; Nm. 19: 17-22).[11]E estas purificações judaicas como já foi visto na parte III, não eram feitas por imersão, mas por aspersão.

O contexto da Carta aos Hebreus apóia esta interpretação. Observe-se o uso que o autor faz da mesma palavra batismo em Hb. 9:10.

Eram apenas prescrições que tratavam de comida e bebida e de várias cerimônias de purificação com água (βαπτισμοίς = baptismoís); essas ordenanças exteriores foram impostas até o tempo da nova ordem (NVI).

O autor novamente fala de “batismos” (plural), e diz que estes batismos existiam até o tempo da Nova Aliança. Comentando este texto Hodge esclarece que tipos de batismos são esses:

Pelo contexto imediato fica claro que eram batismos com “o sangue dos touros e bodes e as cinzas de uma novilha espargidas sobre os imundos” (Hb. 9:13). O apóstolo contrasta o culto dos Tabernáculos com a dispensação cristã. No Primeiro, havia regulamentos com respeito a comidas e bebidas, e diversos batismos e ordenanças acerca da carne. O sangue dos diferentes animais, ou as cinzas de uma novilha, aspergidos sobre os imundos, santificavam quanto a purificação da carne. Na segunda, isto é, na dispensação cristã, é o sangue de Cristo que é eficaz. No primeiro, “Moisés,... tomou o sangue dos bezerros e dos bodes, com água, lã escarlate e hissopo, e aspergiu o próprio livro e também todo o povo... E, além disso, aspergiu também com sangue o Tabernáculo e todos os vasos do ministério” (Hb. 9:19-21). Sem discussões, estes são os “diversos batismos” a que se refere o v. 10 deste capítulo.[12]

e) Algo que ainda deve ser notado é o jogo de palavras do texto. Ao falar das purificações da Lei, no verso 10, o autor usa a palavra βαπτισμοίς (baptismoís), mas falando destas mesmas purificações nos versos 13, 19 e 21, explicando-as, o autor usa o verbo ραντίζω (rantizô = aspergir), porque as purificações eram feitas desta forma. Isto torna visível que o autor de Hebreus usava as duas palavras batismo e aspersão como sinônimas.

f) O Apocalipse. Encontra-se anda o verbo βαπτω (baptô) empregado em Ap. 19:13.

Está vestido com um manto tingido de sangue, e o seu nome é Palavra de Deus.

É impossível ao ler este texto e não se lembrar de Is. 63:3, onde é retratado o estado das vestes daquele que pisa o lagar:

Sozinho pisei uvas no lagar; das nações ninguém esteve comigo.Eu as pisoteei na minha ira e as pisei na minha indignação; o sangue delas respingou na minha roupa, e eu manchei toda a minha veste (NVI).

As vestes de quem pisa as uvas no lagar não ficam sujas por imersão, elas ficam salpicadas, tingidas, respingadas. Por isso βαπτω (baptô) é muito bem traduzido neste texto por: salpicar, tingir, respingar.

Portanto, o grego do Antigo e do Novo Testamento não fornece autoridade para se usar baptô, baptizô ou baptismós com o sentido único de imersão. As palavras não podem assumir um significado à margem de seu contexto e de sua análise lingüística. Quando se olha mais detalhadamente estas palavras é claro que são sinônimas rantizô= aspergir, e o uso das mesmas palavras com o significado de aspersão está no grego tanto do Antigo (LXX) como do Novo Testamento.

Continua...


NOTAS

[1] ARNDT, William F. and GINGRICH, F. Wilbur. A Greek-English Léxicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (Chicago: The University of Chicago Press, 1952), pp. 131-132.

[2] A Greek-English Lexicon of the New Testament (Chicago: American Book Company, s/d.), pp. 94-95.

[3] Dicionário do Grego do Novo Testamento (São Paulo: Paulus, 2003), p. 93.

[4] Diccionario Conciso Griego – Español del Nuevo Testamento (Stuttgart: SBU, 1978), p. 32.

[5] Vademecum para o Estudo da Bíblia 2ª ed. (São Paulo: Paulinas, 2005), p. 165. Para o assunto das mudanças do grego da LXX para o do Novo Testamento, Ibid. pp. 159-167.

[6] Esta palavra é usada geralmente com significado de lavagem de uma parte do corpo, no presente caso, as mãos. BRATCHER, Robert G.; NIDA, Eugene A. A Translator’s Handbook on the Gospel of Mark (London: United Bible Societies, 1961), p. 220.

[7] “A palavra Baptsontai é provavelmente explicada como denotando a mais completa forma do ritual de lavagem, aspersão com grande quantidade de água da bacia, que era necessária para a contaminação pelo contato com a praça do mercado”. CRANFIELD, C. E. B. The Gospel According to Saint Mark (Cambridge: Cambridge University Press, 1959), p. 234 (Tradução minha). Vd. também, TAYLOR, Vicent. The Gospel According to St. Mark (London: Mcmillan, 1969), p. 236.

[8] Evangelho de Mateus (Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 1998), pp. 262-263.

[9]Έβαπτ…] Este uso da palavra mostra que esta não implica necessariamente em imersão de todo o corpo, mas refere-se às mãos que os Fariseus lavavam antes das refeições”. Vd. ALFORD, Henry. Alford’s Greek New Testament. An Exegetical and Critical Commentary (Grand Rapids: Guardian Press, 1976), p. 557.

[10] Έξέχεεν é a terceira pessoa, aoristo segundo, indicativo ativo de έκχέω, verbo variante de εκχυνω, que sugnifica: derramar, aspergir. Vd. RUSCONI, Carlo. Dicionário do Grego do Novo Testamento, pp. 160-161.

[11] FABRIS, Rinaldo. As Cartas de Paulo (III) (São Paulo: Loyola, 1992), p. 447.

[12] O Batismo Cristão. Imersão ou Aspersão? p. 23.

2 comentários:

Anônimo disse...

quero parabenizar o estimado colega pelo brilhante trabalho, por um um cristianismo sério e relevante,Pr Tarcione F LIma

Carlos Barros disse...

Gostei muito do seu comentário, gostaria de receber o restante.
PARABÉNS PELA EXPLANAÇÃO !

NÃO PARE AQUI VÁ PARA OS TEXTOS MAIS ANTIGOS.